A Reforma Tributária no Brasil, que introduz o Imposto sobre Valor Agregado (IVA) dual — composto pela CBS (federal) e pelo IBS (subnacional) —, representa uma das maiores mudanças estruturais nas últimas décadas. A transição, iniciada em 2026, transforma a contabilidade de uma função meramente executora para uma consultoria estratégica, exigindo adaptação imediata, treinamento intensivo e gestão de performance nas empresas.
O ponto principal é simples: no IVA, o risco e o resultado não nascem no fechamento do mês — nascem na origem do dado. Um cadastro errado, um documento fiscal inconsistente, um contrato mal parametrizado ou um fornecedor irregular podem virar crédito perdido, glosa, retrabalho e até contingência. Por isso, a atenção não pode ficar restrita ao fiscal: ela precisa envolver contabilidade, financeiro, comercial, compras, TI e RH.
Por que a contabilidade ganha protagonismo
Com a nova lógica, a contabilidade passa a ser o elo entre operação e estratégia:
garante qualidade e rastreabilidade da informação (o “direito ao crédito” depende do registro correto);
traduz impactos em margem, precificação e capital de giro;
conduz simulações e cenários (especialmente no período em que conviverão regras antigas e novas);
orienta governança (controles, conciliações, política de risco e evidências).
Isso muda o perfil do time: menos “apagar incêndio” e mais “prevenir erro na fonte”.
Dicas práticas e recomendações pontuais e essenciais
1) Monte um “Comitê de Transição” (não deixe só com o fiscal)
Essencial: nomear um responsável e criar um grupo fixo com reuniões quinzenais (depois semanais perto de viradas).
Contabilidade/Fiscal: regras, apuração, créditos, compliance.
TI/ERP: parametrizações, integrações, automações.
Financeiro/Tesouraria: prazos, conciliações, impacto no caixa.
Compras: governança de fornecedores e documentos.
Comercial: precificação, contratos e repasses.
RH/Jurídico: impactos contratuais e políticas internas.
Entrega mínima do comitê: um plano com “o que muda”, “o que cada área faz”, “prazo” e “indicador”.
2) Faça um “mutirão do cadastro” (80% dos problemas nascem aqui)
Antes de falar em apuração, acerte a base:
cadastros de produtos/serviços (descrições, classificações internas, parâmetros fiscais);
cadastro de clientes e fornecedores (regime, dados, consistência documental);
regras de contratos (condições que impactam base: multas, juros, descontos, reajustes);
rotinas de entrada e validação de documentos.
Regra de ouro: se o cadastro estiver frágil, a empresa “perde crédito” por falha operacional, não por falta de direito.
3) Rode “apuração espelho” em 2026 (shadow accounting)
2026 é a melhor janela para apurar de forma paralela:
apurar CBS/IBS em simulação;
comparar com o modelo atual;
mapear “onde o sistema errou”, “onde o contrato trava”, “onde o time não entendeu”.
Entrega mínima: relatório mensal com 3 coisas: diferenças, causas e correções.
4) Redesenhe o fluxo Compras → Fiscal → Pagamento (para proteger créditos)
Crédito bom depende de compra bem feita:
crie um checklist de recebimento fiscal (documento ok? dados ok? fornecedor ok?);
estabeleça “não paga sem documento válido” (ou paga com tratativa e ajuste);
revise políticas de contratação: cláusulas de entrega de documentação e penalidades.
Rápido e eficiente: 1 página com “o que o contas a pagar confere antes de pagar”.
5) Comercial e precificação: trate isso como projeto (não ajuste no susto)
A reforma mexe na formação de preço e margens.
revise contratos: repasse de tributo, cláusulas de reajuste, preço “líquido x bruto”;
crie modelos de preço por tipo de operação (produto/serviço, B2B/B2C);
alinhe discurso comercial para evitar “margem invisível” (perder margem sem perceber).
Entrega mínima: tabela de impacto por linha (margem antes/depois e plano de repasse).
6) Treinamento: faça por trilhas, com prova de aprendizagem
Treinar não é “palestra”; é rotina com validação.
Trilha Base (todos): conceitos, cronograma, impacto no dia a dia.
Trilha Operacional (compras, fiscal, financeiro, comercial, TI): o que muda no trabalho e o que não pode errar.
Trilha Avançada (contábil/fiscal/gestão): cenários, decisões, controles e governança.
Essencial: aplique “mini-testes” e checklists por área. Treinamento sem verificação vira só “evento”.
7) Gestão de performance: meça o que dói no caixa e no risco
Sugestões de KPIs simples e eficazes:
% de documentos com inconsistência (entrada e saída);
SLA de correção (tempo médio para corrigir erro fiscal);
crédito potencial x crédito apropriado (perda operacional);
conciliação fiscal-financeira (diferença entre emitido x recebido/pago);
impacto de margem por produto/serviço (antes/depois);
capital de giro tributário (impostos a recolher vs créditos a realizar).
Essencial: KPI sem dono não funciona. Cada indicador precisa de um responsável e meta.
Checklist essencial (para começar na próxima semana)
Criar comitê e cronograma de 90 dias
Mapear sistemas, cadastros críticos e “donos do dado”
Implantar apuração espelho em 2026
Revisar fluxo de compras e validação documental
Revisar contratos e política de precificação
Treinar por trilhas (com validação)
Instituir KPIs e rotina de reporte à diretoria
Fechamento
A Reforma Tributária não premia quem “fecha bem” no fim do mês. Ela premia quem opera bem todos os dias. E operar bem significa integrar contabilidade com as áreas, treinar com método e gerir performance com indicadores objetivos. Quem se antecipa transforma a reforma em vantagem competitiva; quem reage tarde, paga em retrabalho, glosa, perda de margem e estresse operacional.